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DÉFICIT DE ATENÇÃO E HIPERATIVIDADE (TDAH) E PSICOMOTRICIDADE

Vivemos em uma época que, facilmente, conseguimos um diagnóstico sobre qualquer experiência vivida. Contudo, por outro lado, há uma superficialidade na compreensão de determinadas dificuldades. Em relação às crianças o diagnóstico, muito comum, de TDAH vem escondendo a compreensão do desenvolvimento da criança como um todo, ou seja, as verdadeiras causas daquelas características que levam à conclusão desse diagnóstico. Sem a compreensão das causas de toda a sintomatologia da criança, corremos o risco de camuflar as verdadeiras dificuldades e deixarmos para que elas apareçam mais tarde em forma de uma patologia mais grave ou ainda, que nunca recebam o atendimento necessário para a resolução do problema. O diagnóstico precipitado e o excesso de medicação usado atualmente, somente tem escondido a compreensão do que realmente importa. O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade encontra-se sempre associado a uma desordem afetiva com uma miríade de sinais à sua volta. Parece estranho que quanto mais se conhece sobre o desenvolvimento da criança (o psiquismo, afetividade e a sua expressão motora), mais se tente anestesia-la com medicação, em vez de tratar os transtornos decorridos das inadequações a que a sociedade de hoje nos levou. Hoje, temos conhecimento da importância da afetividade no desenvolvimento do psiquismo. E quando me refiro à afetividade é importante esclarecer que se refere aos afetos de prazer e desprazer (sensações agradáveis e desagradáveis), vividos e registrados no corpo da criança nos primeiros anos de vida e a adequada integração e expressão destes. Vale dizer que todo problema do ser humano, na origem, é um problema de afetividade. Tais observações remetem-nos ao desenvolvimento psicomotor da criança e, para tal, é importante salientar aqui o conceito de Psicomotricidade, que numa dimensão mais ampla, é um conceito de desenvolvimento psicológico, o qual se refere à construção psicossomática do ser humano em relação com o mundo exterior. A psicomotricidade pode ser definida como o campo transdisciplinar que estuda e investiga as relações e as influências recíprocas e sistêmicas entre o psiquismo e a motricidade. O psiquismo, nessa perspectiva, é entendido como sendo constituído pelo conjunto do funcionamento mental, ou seja, integra as sensações, as percepções, as imagens, as emoções, os afetos, os fantasmas, os medos, as projeções, as aspirações, as representações, as simbolizações, as conceitualizações, as ideias, as construções mentais, etc. Bernard Aucouturier (psicomotricista francês) usa o conceito de Psicomotricidade como o usou Winnicott (psicanalista francês). Para ele é um conceito de maturação psicológica, que corresponde a um período de desenvolvimento da criança, onde a sensóriomotricidade não pode ser separada da origem dos processos psicológicos conscientes e inconscientes. Neste período de desenvolvimento, a sensação, o tônus, o movimento, estão na origem da representação mental, e isto se dá, no máximo, até os sete anos. Portanto, falar de psicomotricidade, a partir destes conceitos é falar de um período de maturação, no qual, as sensações e a motricidade estão na origem dos processos psíquicos. Podemos dizer que, a sensoriomotricidade e os afetos são os fundadores do psiquismo, isto é, fundadores das representações conscientes e inconscientes. Somos todos, na origem, registrados de afetos, esses engramas de sensações agradáveis e desagradáveis, marcas de prazer e de desprazer, são a base de nossas emoções futuras. Mesmo sem aprofundarmos muito, já podemos perceber diante destes conceitos, que toda ação da criança tem um significado e que as instabilidades psicomotoras, estão nos contando como foi a construção do continente psíquico desta criança, ou seja, através de sua expressão motora, de suas ações, a criança está nos dizendo como está. Falar de Psicomotricidade é colocar o corpo em discussão, pois não há construção de um eu sem um corpo. Mesmo havendo uma condição neurológica (como uma lesão cerebral, por exemplo) não podemos desprezar a importância do itinerário de construção de seu eu, a psicodinâmica de sua motricidade. Mais que isso, podemos levantar a questão do quanto fica superficial um diagnóstico que não contemple toda a compreensão desta construção, ou seja, de como foi a construção do ego ou personalidade. Já se passaram décadas desde que Ajuriaguerra, famoso neurologista, nos enfatizou sobre a evolução da criança como sinônimo de consciencialização e de conhecimento cada vez mais profundos do seu corpo, do seu eu total. É com seu corpo, nos diz esse autor, que a criança elabora todas as experiências vitais e organiza a sua personalidade única, total e evolutiva. Décadas de estudos e pesquisas, e o que mudou no âmbito educativo? Qual o reconhecimento do corpo ou da expressividade motora no processo ensino-aprendizagem? Como a escola recebe e trabalha com a impulsividade motora da criança? Este corpo continua sendo ignorado, continua sendo esquecido de que ele subentende a presença da criança no mundo, expressando sua totalidade de ser. Como diz Aucouturier (2007), os processos psicológicos, dos mais arcaicos aos mais evoluídos, não estão desencarnados, mas aparecem numa dinâmica de vida, de interação e de comunicação. A ação está na origem do pensamento da criança. Ela faz o itinerário do prazer de agir ao prazer de pensar (no período de 0 a 7 anos, incluindo a fase pré-natal). A compreensão psicodinâmica da motricidade da criança mostra que o prazer de ser e de pensar é apenas a evolução do prazer da ação. Em um bom ambiente que lhe dá segurança, claro em seus princípios, a criança encontra ela mesma os próprios recursos para desenvolver suas potencialidades de ação simbólica, que lhe permitem construir uma identidade e existir, adaptando-se à realidade. Nesta breve exposição, podemos acrescentar que a instabilidade não depende só da criança, também depende das inter-relações das condições ecológicas que a rodeiam, podendo reduzir-se com a idade. A criança pode ser uma vítima dos inúmeros aspectos que a envolvem e, normalmente, como ser mais frágil, a sua instabilidade é apenas o sintoma patológico ou perturbado do quadro emocional, sociocultural e socioeconômico onde ela (não) se desenvolve. Precisamos reconhecer o contexto dos últimos anos, em que a criança é lançada prematuramente em ambientes com excesso de estímulos, em espaços que limitam sua liberdade de ação, colocadas muito cedo em instituições escolares, perdendo cedo a segurança das relações parentais. A grande maioria das crianças, hoje, tem necessidade de ajuda para estruturar-se. Pois, mostram-se confusas com seus referenciais de segurança, falta o ambiente livre para a ação e para se auto curar. Ao longo de mais de 30 anos acompanhando crianças na clínica e na orientação de educadores testemunhei a surpreendente capacidade de auto cura das crianças. Através de suas ações e brincadeiras espontâneas expressam seus afetos, ultrapassando dificuldades e curando a si próprias. A criança tem sempre necessidade de estar segura para que possa encontrar recursos de ação simbólicos, para situar-se com relação a períodos de angústia mais ou menos delicados de integrar (particularmente as angústias de ser destruída ou abandonada). Para se assegurar, ela deve ligar a angústia dolorosamente vivida em seu corpo ao prazer de agir e a todas as suas atividades lúdicas. Brincar é o antídoto para a angústia; a criança é criadora dos próprios asseguramentos, necessários para a conquista de sua identidade e de sua autonomia. Esses asseguramentos se dão através das ações e da brincadeira. No desenvolvimento da criança dos 0 aos 07 anos (incluindo a idade pré-natal), nestas últimas décadas observou-se mudanças e evoluções positivas, contudo, infelizmente dificuldades crescentes em relação ao comportamento das crianças em geral. No âmbito educacional, apesar dos avanços na compreensão do desenvolvimento infantil, na prática, os educadores encontram-se diante de dificuldades, as quais, ficam impotentes sobretudo pela sobrecarga, a que se veem com o número excessivo de alunos dentro de uma classe. Assim a Ritalina se apresentou como solução imediata. No ano de 1991, por meio de um curso sobre a Síndrome de Hipercinese, com Dr. José Raimundo Facion, tomei conhecimento dos estudos realizados em Hamburgo (Alemanha, 1985) e nos E.U.A. com crianças e adolescentes hipercinéticos os quais, foram submetidos à uma dieta pobre em fosfatos e baseada em alimentos mais naturais. Tal estudo comprovava cientificamente, que esta substância presente nos alimentos ultraprocessados, especialmente doces, refrigerantes (era chamado a atenção especialmente para a coca-cola), as farinhas e açúcares refinados, influenciava significativamente o comportamento social do indivíduo, tornando-o hiperativo, impulsivo e agressivo. Este estudo baseava-se no método de Hertha Hafer, uma farmacêutica que já havia pesquisado e desenvolvido uma dieta, a qual divulgou em seu livro The Hidden Drug – Dietary Phosphate” (A droga escondida – fosfato dietético: causa de problemas de comportamento, dificuldades de aprendizagem e delinquência infantil). De acordo com as pesquisas de Hertha Hafer, o consumo excessivo de fosfato está ligado a problemas comportamentais e hiperatividade. Outras investigações apontam os fosfatos como proliferadores de tumores pulmonares, promotores de arteriosclerose e resistência à insulina, assim como outros problemas de saúde. Há quase 30 anos atrás, nós psicoterapeutas que trabalhamos com criança, já éramos alertados sobre os efeitos dos açucares no comportamento das crianças. Em meu consultório, muitas vezes orientei os pais da importância da alimentação natural, menos industrializada, para essas crianças sensíveis aos fosfatos, com bons resultados. Daquela época para os dias de hoje essa relação da criança com esse tipo de alimentação só piorou. A alimentação das crianças em casa assim como seu lanche na escola tornou-se cada vez mais industrializado e com excesso de alimentos refinados e açucares. Crianças sensíveis às substâncias presentes nesses alimentos, ficam intoxicadas apresentando sintomas que podem se repetir até a idade adulta e persistirem, embora não de forma tão contundente quanto na idade escolar. Alguns autores citam, que em sua fase aguda, esses distúrbios variam de hiperatividade a agressividade em indivíduos, cuja inteligência pode ser inibida por reações incontroláveis como instabilidade emocional, impulsividade, incapacidade de concentração, dificuldade de adaptação, de integração, distração, melancolia ou agitação em seu comportamento. Durante quase 30 anos, esta dieta de fosfato foi comprovada na Suíça, Alemanha e nos Estados Unidos, bem como em vários hospitais na Suécia e na Noruega para parar a Ritalina. Alguns profissionais citam que a dieta Hafer (como é chamada) permitiu a completa regressão dos transtornos evitando qualquer ingestão de Ritalina. E no Brasil o uso da Ritalina só fez aumentar. Podemos deduzir daí o mal-estar dessas crianças e adolescentes. Somente através do conhecimento da evolução da criança pode-se dar a devida atenção às suas experiências e necessidades irredutíveis e pode-se efetivamente criar estratégias educacionais adequadas. Vigotski (1993) critica a psicologia centrada na quantificação, na classificação e na tabulação das áreas fracas das crianças, como base única e exclusiva para encaminhar crianças para programas educacionais segregados. Defende uma abordagem mais qualitativa e dinâmica, abrangente e consequente em termos de intervenção prescritiva e prospectiva. Preocupa-se, antes, em desenvolver um diagnóstico dinâmico mais dirigido para captar as áreas fortes e para identificar os talentos das crianças. Nesse contexto, o educador tem um papel importante no desenvolvimento harmonioso da criança, não pode contentar-se em ser um observador “da natureza boa” ou um revelador das diferenças existentes entre elas. Ele é o catalisador das potencialidades da criança, é o dinamizador da maturação da criança. Portanto é imprescindível compreender a criança pela via de sua expressividade motora. Acolher a criança com todo o respeito, como uma pessoa em desenvolvimento, que dá o testemunho de uma experiência única. O âmbito educativo deve dar-lhe as possibilidades de existir, oferecendo condições favoráveis para comunicar, expressar, criar e pensar.


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